16 de dezembro de 2008

belaflorbelaflorbela

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor

A mais triste de todas as mulheres.



Que só, de ti, me venha magoa e dor

O que me importa a mim? O que quiseres

É sempre um sonho bom!

Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!



Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascessemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...Beija-mas bem!...



Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei pra minha boca!...

10 de dezembro de 2008

Escolhas


De morango ou chocolate. Azul ou vermelho. De noite ou com sol. Natural ou com gás. Frito ou cozido. À vista ou no cartão. Escolhas podem ser simples, mas nunca banais. A complexidade está justamente no respeito à outra opção, a rejeitada. Ela pode virar um desagradável "e se" ou um sempre incoveniente "poderia ter sido". E nada parece tão deprimente do que viver de arrependimentos ou apego a probabilidades, quimeras e distorções românticas da realidade. Fiquemos, pois, com a busca pelo nosso equilíbrio, para que tenhamos a firmeza de escolher e a certeza de acertar.

5 de dezembro de 2008

Tiras pares


"Renatinha, se você desenhasse, em vez de escrever, faria isto no seu blog":




(Vejam. Muito bom! =P)


Fonte: Bobagento.com

30 de novembro de 2008

Dezembro

The blood of fish - Gustav Klimt

Chegou a hora de planejar. E, assim, renovar pequeninas esperanças que andam soltas ou mesmo perdidas dentro de nós. Nem que seja apenas para escolher onde passar o Réveillon...ou fazer uma lista de metas para o ano iminente. Engraçado perceber a capacidade humana de renovação, por mérito ou convenção; a onda dos sinos e luzes do mês doze arrasta até os mais descrentes. Todavia, parece igualmente excitante a idéia de mergulhar de olhos fechados num mar desconhecido. Não saber o que nos espera e o que esperamos de tudo. Talvez bom mesmo seja o não esperar. E dar à virada de ano um requinte de aventura, com a garantia de um tantinho a mais de equilíbrio. Afinal, se a vida programada, metódica e linear causa desgosto nos mais inquietos, deixar os segredinhos desta piada mundana nas mãos da Providência pode ser o motivo maior do sorriso na hora do champanhe. Dezembro é, portanto, espumante.

24 de novembro de 2008

Vida Playmobil


Fui provar roupa na cabine e chorei. Bem que poderia ser título de filme ou peça, não houvesse um tantão de vida real nessa tragicomédia. O depoimento da amiga provocou risadas, mas não houve pedras na pobre Geni. Quem está 100% satisfeito com o peso afinal? Se muitos dedos fossem levantados agora certamente não chegaria no lixo do e-mail tanta mensagem do tipo "Emagreça 20 quilos em uma semana", as revistas não estampariam semanalmente manchetes mentirosas como "Perca peso sem esforço" nem as ruas seriam poluídas com os famosos panfletos "Quer emagrecer? Pergunte-me como". É um fenômeno 'midiático' parecido com os milagres do nível: "Aumente seu pênis em até 7 cm" e "Cabelos lisos e sedosos em apenas uma aplicação". Embora banalizado, o problema deixa de ser engraçadinho para se tornar triste quando observamos que os seguidores do Padrão Globo de Qualidade não estão no Mundo dos Cérebros Atrofiados, e sim na nossa família, na roda de amigos ou até do outro lado do espelho. De tanto ler Quem e Caras na sala de espera de consultórios médicos, por exemplo, a gente vai achando que tem que ter cabelo liso, corpo esquelético, silicone e vestuário Versace para ser popular como líderes de torcida norte-americanas. Estamos virando um bando de playmobil: mulheres de chapinha e calça legging; homens de cabelinho emo e camisa apertada no braço. Falamos de brega, carros e futebol. Na verdade, somos risíveis. Bonecos de dois dedos e cabelo de cuia. Monótonos e igualmente sem graça. Gosto de gente normal; pode até ter cara de Lego, Fofão ou Cascatinha (meda), mas um nariz grande, uma celulite e um black power não fazem mal a ninguém. Por uma barbie baixinha, um Cebolinha de bigode ralo, uma Moranguinho fofinha e um dinossauro Barney gay (pleonasmo?)!

17 de novembro de 2008

E não viveram felizes para sempre


Assistir a filmes infantis tem seus encantos, quando não se processa a típica lavagem cerebral causada por músicas-chiclete (quem tem filhos pequenos sabe o que é passar o dia com notas musicais de Patati e Patatá, Moranguinho e Cocoricó na caixola). Melhor ainda quando você se identifica com um dos personagens, a ponto de até torcer por um final feliz, quando sempre espera que ele não aconteça, como no cinema adulto e agradavelmente ranzinza. Ele era legal, esperto, mas não deixava que a filha lesse típicos contos de fada, nos quais nem maçãs envenenadas nem terríveis maldições são capazes de impedir o "felizes para sempre". Aí, claro, aparece uma princesa (literal) da Disney que o faz apaixonar e voltar a acreditar no amor eterno. E, mesmo sendo uma comédia romântica, acaba cor-de-rosa. Apesar das risadas, continuo evitando que meus filhos assistam aos melosos como Cinderela, Bela Adormecida e A Pequena Sereia. Pois cheguei à conclusão de que boa parte dos problemas femininos vêm dessa crença no príncipe salvador, de cavalo branco. Taí a causa da desilusão feminina com os seres do sexo oposto. Crescem acreditando que vão salvá-las do perigo, de bruxas, lobos e situações horrendas em geral. Têm certeza, desde menininhas, que eles são gentis, cultos, sensíveis e - o pior - sedentos por compromisso (casar e ser feliz para sempre). Quando descobrem, com a chegada da puberdade, que, na verdade, os homens são os próprios lobos e vilões dos contos de fada da vida real, experimentam da terrível desilusão. É bom que saibam logo onde vão pisar. Além do tapete vermelho e da grama suave, seus pezinhos podem não estar protegidos pelo sapatinho de cristal. Homens são reais; finais não são sempre felizes; e achar que a felicidade está somente em viver ao lado de um cara pode transformar a história numa tragédia.

13 de novembro de 2008

Ménage a cafuçois


- Meu nome é Júlia...e eu sou cafuçólatra.

- Seja bem-vinda, Júlia! (coro)

- Obrigada. Eu estou aqui porque trabalho num ambiente de tentações. Os cafuçus se aglomeram por todos os lados. Já consigo ser amiga de alguns, sem esconder tanto minhas preferências. Sem vergonha. Regatas e pelos me interessam. Jeans cintura alta e sapatos mocacins sem meia também. Lá, eu sou "princesa", "filé" e "minha flor". E eu gosto disso.

-Parabéns, Júlia. Só por hoje, você arrumou um, ou melhor, dois cafuçus para chamar de seus.
- Clap clap clap



10 de novembro de 2008

Clique seu cafuçu!


Não importa se tens tara ou apenas admiração. Se achas a condição essencial ou somente plus. Cafuçu está para o macho como a Amélia está para a fêmea. Isso não quer dizer que a admiremos - mas trata-se igualmente de uma lenda, de um ideal masculino, às vezes (esperamos) inconsciente. O cafuçu também. Não achamos atraente o cuspir no chão e as cantadas baratas, mas, no fundo, gostamos do espírito Neanderthal do homem, de um ar levemente Stalone Cobra, de uma cretinice só de leve (e de mentirinha também. Afinal, canalha tá ultrapassado). Enfim, I love cafuçu. Você também lova. Todas nós lovamos (negar para quê?).
Portanto você, fêmea selvagem, não precisa mais se esconder. Sabemos que, em seu mais profundo existir, habita uma Amélia à espera de um Jeca. Há um desejo forte e incontrolável, que pede, que clama por um cafuçu.


Se não tem coragem de casar com um (esperta! continue assim!), não se acanhe, liberte-se: registre esse momento! Tire uma foto e mande pra gente. Faça parte da Terapia do Cafuçu, cujo lema é Só por Hoje vou Amar um Cafuçu. Eu, Renata Sá Carneiro Leão, 27 anos, jornalista, mãe de dois, confesso, sem medo: sou cafuçólatra enrustida. Só por hoje vou curtir minha foto com um cafuçu (observem o colete, os óculos, num evento científico, e a pulseirinha de pano. Pediu pra tirar foto comigo e perguntou se eu era casada ou solteira...típico!), vou amar um cafuçu. Clap clap clap.


Mande sua foto também. E veja sua vida mudar. Um dia de cada vez. Força!

9 de novembro de 2008

Papiro e pena


Laudos, bulas,
requisições, rótulos,
gorduras e valores energéticos.
Chega de brincadeirinha.
Voltando às infantis
e quase sempre inofensivas letras.
Em
breve,
nos
cinemas.

28 de outubro de 2008

Pedras e tempos

Algumas coisas só parecem existir quando não precisam mais existir. É o caso da vesícula. Toda tão-tão-que-nem-nem no alto de sua inutilidade (com o perdão dos especialistas) que precisa se fazer ainda mais desnecessária para chamar atenção. Diferentemente das birras, gritos e arremessos de objetos tipicamente infantis, o orgãozinho fedelho precisa de pedras para jogar na sua cara. Umas pedras no meio da vesícula; no meio da vesícula, muitas pedras. Já vai tarde, preguiçosa. Há muito inútil; no avesso das horas do dia. Que, no início da vida, aparentam ser excessivas, demoradas e sem razão de ser. Ponteiros lentos. E, em poucos anos, se valorizam tanto que não servem mais para nada. Que venham mais; 30 horas talvez. Menos pedras, mais horas, nenhuma vesícula, todo o tempo. Acertemos assim: pedras nos relógios e vesículas para apreguiçar as horas do dia!

8 de outubro de 2008

Gracinha


Seria cômico não fosse trágico. Fazer rir, provocar risadas ou espasmos de diversão, neste mundo cão (rimou!), é mais difícil do que causar males em geral. E quem não tem o dom, o talento nato de palhaço ou, ao menos, uma cara de bunda - da qual o povo ri de graça -, ao tentar dar uma de engraçadinho, pode perder o amigo e a piada e, de quebra, ganhar fama de tabacudo(a). Já os humoristas de carteirinha ou de berço fazem a alegria da galera, animam uma festa como ninguém, são considerados indispensáveis na mesa do bar e costumam ser convocados como companhias ideais para curar a tristeza alheia. Uma amiga, dessas que fazem azul a rotina no trabalho, provoca sorrisos ao narrar os foras que costuma dispensar a idiotas de plantão. E o faz em siglas e mugangas. Vocabulário da magrinha: "Te enxerga, KLB!" (Ki Lapa de Bucho); "Ah, rato! (Ratomar no cu); entre outras coisas pouco mais baixas. Mas a danada, muito esperta, não faz a exposição da sua figura gargalhável fácil. Outro amigo é especialista em cuidar dos parceiros bêbados e, portanto, maior contador das bizarrices etílicas dos rapazes. "O cara bebia como se comesse feno", comparava, dia desses, imitando a vítima da fofoca, para felicidade geral da nação. O problema em fazer graça é que você acaba virando o Bobo da Côrte oficial da turma e ninguém o leva a sério. "Eu nunca sei se você está tirando onda ou não", já me disse um punhado de gente. E tudo vira uma brincadeira. Mesmo quando a graça acaba, e quem fica de graça é você. Como pessoas com piadas sofríveis na modinha stand up comedy. Como o meu irmão, que, para dar uma de Patati e Patatá (piada interna para mães e pais de filhos pequenos viciados na dupla de palhaços), gravou música clássica no meu MP3, o que descobri ao chegar na esteira da academia. Conta outra! Apesar de não ter direito a cara feia ou problemas de qualquer sorte, quem faz rir por último ri melhor e de si mesmo.


4 de outubro de 2008

Homem é homem


"Homem é homem, menino é menino, macaco é macado e viado é viado", já disse Falcão. Pois pois. Tal continua a ser o argumento masculino para a falta de caráter, a escrotice e a ausência de honra ao mito do sexo forte. Traição, mentira, sentimentos volúveis? "Homem é assim", esfaqueiam. Não que seja novidade ou que eu queira voltar às discussões sexistas/feministas comuns neste bloguinho. É que a bestialidade e a futilidade masculina, marcantes em todos os níveis de "maturidade" das pessoas de duas bolas, assustam mais do que nunca. Em mesas, no ônibus, no trabalho, ouve-se os (auto)considerados garanhões comentando a sobra de mulheres e a conseqüente e gradativa ousadia das calcinhas no ataque. Divertem-se, mais do que nunca, nos seus contadores, que registram quantas moçoilas - com menos de 30, claro, afinal, "a carne vai caindo", disse-me um dos vermes recentemente - pegaram no fim de semana, mesmo que, de dez, seis tenham sido bonecas infláveis vivas ou peitos e bundas desprovidos de calor. Não que as meninas sejam superiores ou tenham menos desejo de viver aventuras sexuais, como eles pregam. Até porque nossos exemplares de saias mais jovens costumam beijar mais de uma boca por noite e se gabar dos garotões sarados "ingeridos". Mas nós, quando vamos adquirindo certo know-how sentimental, temos, ao menos, noção do que nos satisfaz de verdade, o que nos traz retorno. "Como assim retorno?", indagou um amigo canalha. "Orgasmos reais", tive vontade de responder (pra chocar mesmo! Grrrrr). Sim, porque não vemos graça em beijar vários na balada e voltar para casa vazias. Ou em sexo casual com monumentos de barriga tanquinho que não necessariamente mandem bem na cama. Sabemos o que é bom, e não perdemos tempo com aventuras tantas com graça pouca. Em vez de ficar com seis pares de braços malhados, a mulher pode optar por um caso sem cobranças com o magrinho discreto divertido e de boa pegada. E geralmente os que são bons mesmo não vestem tanto o personagem Pegador. Sinceramente, Pegadores dão asco. Ao ver o tipinho de camisa apertada, músculos à mostra, cabelo da moda e falta de olhar fixo (sim, porque estão sempre mirando as várias carnes do rodízio), a vontade é de atravessar a rua. Se homem é homem, mulher é mulher. E, para nós, o que vale é hombridade, charme e feeling. Algo muito além de corpo, números e tamanho.

30 de setembro de 2008

Por telepatia


Substantivo feminino que significa "comunicação de pensamentos, sentimentos ou conhecimentos de uma pessoa para outra, sem o uso dos sentidos da audição, da visão, do olfato, do paladar ou do tato". Telepatia pode soar tão estranho quanto ETs, abdução e fendas no tempo. Mas é habilidade mundana, é fato. Como negar essa capacidade se a certas pessoas não é necessário sequer mover os lábios ou franzir o cenho para se fazer compreendido? Ou ouvir, ler e traduzir sinais físicos para compreender a mensagem do outro? O tema seria debatido, muito justamente, a partir das mais amplas visões, ideologias e experiências. Mas não importam as causas e os porquês quando se pode viver plenamente a ausência de barreiras entre pessoas. Aquelas amigas que se divertem com as coincidências de pensamento e se preocupam, de repente, com uma aflição que as fazem lembrar da outra. Aquele amigo que, antes de contar os problemas, é surpreendido com as adivinhações certeiras do interlocutor. Aquele homem que se liga misteriosa e fortemente àquela mulher, com e sem palavras ou rostos. Talvez sentimentos tão intensos dispensem a matéria e seus instrumentos vulgares de comunicação. Pode também o entendimento de um para o outro ser gratuito ou estranhamente pleno. Ou duas criaturas terem o mesmo a dizer ou receberem de forma igual as mensagens. De toda forma, há uma ligação interessante entre elas. E, para saber o motivo do elo, não precisam de perguntas e respostas comuns. Olham-se e dizem: "é você". Ou não se olham e sabem. Não se pode fugir do óbvio. Não dá para escapar do onisciência alheia sobre si.

23 de setembro de 2008

Se enamora


SE ENAMORA

(Garofalo/ Monti / Vicenzo Giuffré / Giannino Gastaldo / Edgard Poças. By Balão Mágico)

Quando você chega na classe
Nem sabe
Quanta diferença que faz
E às vezes
Faço que não vejo e não ligo
E finjo ser distraída demais
Quantas vezes te desenhei
Mas não consigo
Ver o teu sorriso no fim
Te sigo
Caminhando pelo recreio
Quem sabe
Você tropeça em mim

Se enamora
Quem vê você chegar com tantas cores
E vê você passar perto das flores
Parece que elas querem te roubar
Se enamora
Quem vê você chegar com tantos sonhos
E os olhos tão ligados nesses sonhos
Tesouros de um amor que vai chegar

Quando toca o despertador
De manhãzinha
Me levanto e vou me arrumar
E vejo
A felicidade no espelho
Sorrindo
Claro que vou te encontrar

Fico só pensando em você
E juro
Que vou te tirar pra dançar
Um dia
Mas uma canção é tão pouco
Nem cabe
Tudo que eu quero falar
Se enamora
Quem vê você chegar com tantas cores
E vê você passar perto das flores
Parece que elas querem te roubar
Se enamora
Quem vê você chegar com tantos sonhos
E os olhos tão ligados nesses sonhos
Tesouros de um amor que vai chegar
Se enamora
E fica tão difícil
De ir embora
E às vezes escondido
A gente chora
E chora mesmo sem saber por quê
Se enamora
A gente de repente
Se enamora
E sente que o amor
Chegou na hora
E agora gosto muito de você.

19 de setembro de 2008

O nosso mundo


Eu bebo a Vida, a longos tragos,
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos...
Os meus sonhos agora são mais vagos...
O teu olhar em mim, hoje, é mais eterno...
E a Vida não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?
Que importa o mundo e os seus orgulhos vãos?
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!
(Florbela Espanca)

17 de setembro de 2008

A CARTILHA DO ESQUECIMENTO - FINAL

IV – Vade retro!

Feito. Você vive os dias como se aquela desagradável presença nunca tivesse existido. Para tanto, se esforça, não em cultivar memórias negativas, mas em ser lúcido o suficiente para que enxergue o que realmente importa nesta vida bandida: você. Nada de bancar a Marina Lima e procurar um homem (ou mulher) pra chamar de seu (sua). Acredite: desespero só atrai desgraça. E, se acha que esteve cego no último relacionamento, ficará também surdo e mudo nesse fake nosso de cada dia.
No esforço de tentar curar um amor com outro, projetamos a imagem do nosso salvador, o maldito príncipe encantado que chegava do nada, nos contos de fada, e transformava qualquer inferno em paraíso. Ele é o culpado pelos nossos sonhos babacas de mocinha desamparada à procura de galopes no cavalo branco. Recém-quase-lobotomiado, basta aparecer o primeiro exemplar do sexo oposto, e ele se transforma no seu parceiro ideal. E o desencanto pode não acontecer em apenas duas semanas...
Querer alguém a todo custo geralmente indica que não estamos à vontade conosco. A companhia de si mesmo incomoda. Diria ele que “a ausência é uma presença mal resolvida”. Quer maior responsável pela nossa intriga conosco mesmos do que uma presença mal resolvida? Não basta decidir o fim; há de se espantar a presença, a entidade, o encosto que o acompanha dia a dia. Projeta-se o falecido como alvo de vingança, planeja-se atos que mostrem à alma-penada como você superou tudo isso. Como você é superior, adulto e poderoso, não? Rá. O poder é justamente o esquecimento, a abstração, a sublimação, o passar por cima sem se inclinar. Ao corterjar essa “presença mal resolvida”, você nunca deixará de ser a boneca do vodu, sendo alfinetada com cada atitude do coisa-ruim, cada informação, cada não-atitude também. Vade retro!
Não se vingue, não se importe com o que ele fale ou pense. Eis a etapa final do esquecimento saudável. Rememorar as dores, os motivos que levaram ao fim e as razões que justificam sua dor aparentemente infinda só vão manter o obsessor sempre ao seu lado, e sem sexo, cafuné ou ombro amigo. Deixe-o correr para a luz. Se não quer perdoa-lo, ao menos não o mantenha consigo por meio da mágoa. Mostre à sua segunda sombra a porta da frente e feche também essa aí de dentro. Mas não tranque. Quem sabe se o próximo a tocar a campainha não será você mesmo? Convide-se para entrar, tome um vinho e um banho quente com essa visita agradável. E deixe-a ficar. Sem ausência, a sua presença é bem resolvida. E quem vier encontrará a casa iluminada, boa música ambiente, cheiro de flores e um lado vazio na sua cama aquecida.

11 de setembro de 2008

A CARTILHA DO ESQUECIMENTO - Segunda parte

III Passo – Experimente outra rotina

Não se preocupe. Não é para sempre o tratamento de choque do Movimento dos Sem Memória. Todavia, até que um coração viciado/escravo/desavergonhado esteja completamente sob domínio de quem o carrega, é preciso navegar por outros mares e dar um tempo onde as águas são revoltas. E, se não quer continuar nadando e morrendo na praia, reúna esforços para praticar a bendita abstração. Abstrair, oras. Respirar fundo, contar até 10 e fingir que aquele problema não é seu. Para quem fingiu, por tanto tempo, estar feliz num relacionamento do Mal, será fichinha acreditar na nova realidade cor-de-rosa.
Sabe aquela música linda que vocês ouviam juntos ao contemplar estrelas? Você não gosta mais. O filme que ele te deu de presente no Natal passado...você vai emprestar sem exigir devolução. Sim, vai abrir mão do próprio bom-gosto, das preferências e de tudo o que o faz pensar na criatura que quer eliminar da memória afetiva. Nada de valorizar pensamentos involuntários do tipo “que coincidência! A nossa música no rádio!” – como se todas as boas músicas do mundo tivessem sido feitas só para esse casal idiota em particular, e não existissem outros milhares de casais idiotas se achando exclusivos. Não se trata de um plano do destino para unir os dois novamente, tampouco a Lua, em Júpiter, lança uma atmosfera que, não se sabe por que, faz magicamente surgirem, por todos os lados, símbolos, fotos, luzes de neon e sons que caracterizam a fabulosa e inédita história do ex-casal.
Já que você está de volta à vigília, deixe de ser a parte idiota e achar que o mundo gira em torno desse caso falido e desgraçado de falso-amor. Inteligente como é, sabe que amor mesmo só traz boas e agradáveis lembranças, nenhum sofrimento e paz, coisa que você não sabe o que significa faz tempo. A paz, contudo, invadiu o seu coração. De repente, você vai ver o mundo de forma prática e nada ridícula. As músicas e filmes existem e estão se lixando para você; os autores sequer sabem de sua existência e, se sonharem com a possibilidade, vão rir da sua cara por você achar que somente seu pezinho de Cinderela cabe no sapato de cristal.
A técnica é: não ouvir os discos e assistir aos filmes que o fazem recordar. Queime as fotos (obedeça sem hesitar). Não negue, pois todos sabem que você faz isso. Como é previsível a sua rotina de provocar lembranças, se acabar de chorar e se achar o último desgraçado da face da terra! Ó, por que logo você, que entregou seu coração? Chega! Pelo amor de Deus, você não tem mais 15 anos e não quer fazer os seus amigos sentirem náuseas ao ouvirem lamentações de tal ordem! Cultivar a autopiedade é causar repulsa nas pessoas. Ser coitadinho é pior do que ser corno. E disso você deve entender. Portanto, não provoque o vômito ao sentir nojo de si mesmo. Não provoque as memórias metendo o dedo na goela do imaginário que você reserva só para sofrer. Aproveite para descobrir novos autores, lançamentos e esquisitices legais. Em breve, será permitido voltar aos favoritos sem a mancha do intruso que lhe tomou a essência artística – momentaneamente. Vai de rumba?

10 de setembro de 2008

A CARTILHA DO ESQUECIMENTO - Primeira parte


Passo I – Aceite, chore e lamente sua desgraça

Não que eu me ache sábia, a última das sofredoras, a espertinha-mór ou a dona do poço mais fundo. Mas que eu já cheguei lá embaixo, cheguei. E, como tantos, perdi muito tempo ouvindo o eco dos próprios gritos esconder o som do silêncio. O silêncio da paz que só nós mesmos irradiamos para dentro e para fora. E quando ela bate no juízo, que vergonha, que raiva, que horror termos nos deixado afundar! Passada a tontura, a raiva só volta quando vemos criaturas queridas passarem pelos mesmos problemas. Vontade de mostrar, por osmose, que há vida depois da fossa. É para esses amigos, que não conseguem deixar ir embora o monstro do armário que os trancafiou nas trevas da paixão e ainda os assusta, que dedico este pequeno e despretensioso manual prático da lobotomia: A cartilha do esquecimento.
Eu disse prático. Então, se a decisão está tomada, acredite nela: “não quero mais”. Repetiu três vezes em voz alta? Pois agora pode se envergonhar, se chamar de burro e dar uma tapa na cabeça. Sinta raiva desse picadeiro preto e branco onde o único palhaço foi você. E, o pior, não teve graça alguma. Lamente – mas só neste instante-flash. Lamentemos todos rapidamente a nossa desgraça. Não porque o outro seja desprezível, por termos protagonizado as cenas mais ridículas e levado tão a sério problemas hoje encarados como simples. Mas porque perdemos nossa autoconfiança, nosso amor-próprio e, principalmente, a sagrada vergonha na cara. Agora, respire fundo e se belisque: apesar de todo o drama, você (ainda) está vivo.


Passo II – Escolha seu sobrenome

Quando nos recuperamos de um tabefe grande no coração – talvez o maior da vida, o primeiro ou só mais uma surra de amor –, saímos meio anestesiados, flutuantes como um sem-gravidade. Como quem acordou depois de uma febre delirante ou sentiu o efeito maravilhoso do remédio após uma enxaqueca de morte. Não importa se queremos realmente morrer, voltar a sofrer no relacionamento-bomba ou se ainda estamos seqüelados. Os ombros estão leves e livres de um peso terrível. Fato. O que você vai fazer com essa sensação é a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Sr(a) Livre-Arbítrio, qual seria seu sobrenome agora?
a – Masoquista
b- V de Vingança
c – de Calcutá
d – n.d.a

Direto ao ponto: faz de conta que não perguntei. Porque você pode optar por qualquer uma das alternativas, pode vestir a fantasia que quiser e orgulhar-se da nova máscara, mas continuará sendo o mesmo. Bingo! Vai simplesmente ignorar tudo o que sentia há pouco. O quê? Quem? Desculpe, não sei do que você está falando. Pode ter sido há dois meses ou há duas horas o trágico fim de Romeu e Julieta. Hoje você é Fulano da Silva Sauro, muito prazer. Do jeitinho que era antes de emprestar a identidade para sua personalidade demente, que, como você sabe, acaba de ser assassinada brutal e rapidamente pelo alguém de carne, osso e orgulho que você é. Incidente do qual você já nem se lembrará a partir de JÁ.

Olhe-se no espelho. O mesmo bebezinho da mamãe, com direito a álbum de família, registro no cartório e curriculum vitae. A pergunta que vai te calar: A Bela Adormecida, por acaso, lembrou-se dos anos que passou roncando no castelo? A vovó de Chapeuzinho Vermelho se recordou das horas em que esteve na pança do Lobo Mau? Fênix pensa nos tempos em que era cinzas? Ah, faça-me o favor: esqueça. Você esteve cataléptico. Agora ressucitou.
Perda de memória recente será a patologia-desculpa para qualquer indagação a esse respeito. Se fosse submetido, neste instante, a hipnose vulgar, viraria adolescente, ficaria na posição fetal e voltaria até a vidas anteriores, mas não registraria o período em que deixou de controlar o próprio pulso. Quando eu disser “um”, você não recordará essa terrível época. Três, dois, um...ACORDE!

9 de setembro de 2008

Doa a quem doer


A verdade pode doer, mas só quando o coração é falso. Não vejo virtude maior, qualidade mais viva, retrato mais belo do que sinceridade, clareza, lucidez, honestidade. Embora venerável, a verdade parece estar demodê. Soa estranho responder com franqueza aos questionamentos, íntimos ou alheios. Você é temido se vê a vida como ela é e fala sobre tal como tal. Repreende-se o abrir o jogo, o cartas na mesa e o preto no branco. "Você não pode entregar o ouro assim fácil"; "Se contas tua intimidade, perde o mistério"; "Amiga é o caralho". Então tá. O Ministério das Máscaras adverte: mostrar a cara pode causar constrangimento, temor e estigmas. Comigo funciona diferente: quanto mais os conheço como são, de cara limpa, mais os admiro. Pelo jeito, é mais um capítulo da série: Bonzinho só se fode.

8 de setembro de 2008

Confissões de adolescente


A sensação de ter passado um fim de semana memorável, o sorriso quase perene, os flashes provocadores de emoções recentes, os calos nos pés, o sono acumulado e o pescoço dolorido. Um quadro digno da gloriosa época de adolescente, das viradas e atmosfera de "como será o amanhã?/ Respoda quem puder/ O que irá me acontecer?/O meu destino será como Deus quiser". O cenário não podia ser mais nostálgico: o velho Garagem. Depois dos programas iniciais, o fim de noite no recinto podreira, com som ótimo e cerveja quente caiu muito bem. Até o líquido precioso estava gelado - ou eu me encontrava tão eufórica quanto nas farras pré-25. Desceu bem. E o gosto ficou na boca, mais forte do que a ressaca pré-balzaca. Tudo bem que a energia é maior na fase mais jovem. Mas ao nosso favor, agora, contam mais responsabilidade, melhor seleção de companhias e, claro, todo o apurado do tempo. Quem disse que levantamento de filhos, sono interrompido e jogo-de-cintura não compõem um ótimo treinamento de ritmo e resistência?

5 de setembro de 2008

O jogo da amarelinha

"Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja. Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua."
(Rayuela - cap. 7 - J.Cortázar)

3 de setembro de 2008

Descomplique


- Mas, amiga, ele tem muitos problemas. Por isso, mal tem tempo de me ver.

- Sei...e qual a última vez em que te ligou?


- Semana passada eu liguei...ele não retornou. Mas, coitado, está com trauma, né? Acaba de sair de um relacionamento tumultuado.

- Sabe um livro maravilhoso que estou lendo? Ele simplesmente não está a fim de você.


- Mas...

- Sem mas. Sem desculpas. Entendamos de uma vez por todas: quando um homem quer de verdade, ele pode ser o presidente da república, mas arruma um jeito de te ver, te procura, participa da tua vida. Caso contrário, esqueça. Ele simplesmente não está a fim de você.


- Faz sentido.

- Faz milagre! Agora não me aperreio mais. Se o cara não dá sinal de vida, dá uma de que "qualquer dia, a gente se vê" ou de "vamos marcar mesmo", é que não está suficientemente interessado. E eu não vou perder meu tempo esperando o telefone tocar, o msn piscar ou o carro dele buzinar. Foda-me ou foda-se!


- É a bíblia sagrada!

- Liberdade, minha amiga! Agora, a maior qualidade de um homem é gostar de mim e o pior defeito, não gostar. Se não aparecer, ou morreu ou não quer. E quem quer algo não-recíproco?


- Amém!

- No men!

2 de setembro de 2008

Isso de que não ouso dizer o nome


Não saberia responder. Não sobre ele, a interrogação. Os pretenciosos - e tão pobres - conhecimentos sobre a escorregadia alma masculina não parecem funcionar naquela atmosfera nebulosa que o circunda. E rarefeita. Tragam-me ar, por favor. Não, não me sinto bem assim nessa neblina - quente aqui. As mãos pegam fogo. Dêem-me água, imploro. Pensando melhor, sinto-me bem. Mas não sem assumir minha condição de analfabeta de seus anseios. Anseio por algo que nem sei se aceito. E ainda assim desejo. Ler, soletrar, pronunciar em seu ouvido tudo o que minha boca não ousa falar. Mergulho, pois, nessa névoa e permito-me embriagar de exclamações. Que as vírgulas fiquem embaixo dos lençóis. E o ponto bem longe do final.

1 de setembro de 2008

Ninguém é de todo bom


Que eu perdi a fé no ser humano já confessei há algum tempo. Acho que, assim, é possível evitar problemas e sofrimento gratuitos. E não por viver com o desconfiômetro ligado - talvez até seja por mantê-lo sempre calibrado. Quando se alimenta a imagem ideal das pessoas, basta um rabisco, um amassadinho para que se frustre com a realidade. Afinal, quanto maior a expectativa, maior a decepção. Esperar sempre o bom das pessoas faz com que nossos alarmes apaguem e as defesas se desarmem. Aí, se (ou quando) vier a bomba, sentimo-nos apunhalados pelas costas, arrasados, mais baixos do que o chão. Por que não deixar o coração avisado de que seres humanos têm demônios e anjos dentro de si? Que se pode esperar tudo e, ao mesmo tempo, nada de alguém? Afinal, não é por que o amigo, namorado ou a própria mãe amam que estão imunes ao lado podre de toda criatura. "Mas como e por que ele teve coragem de fazer isso comigo?", disse-me uma amiga dia desses. E, toda vez que alguém me fala algo do tipo, dá vontade de responder: "porque você permitiu". A vida já é tão dura para que ainda nos deixemos ser pegos de surpresa por traições de todos os níveis...Não custa ser honesto consigo e perceber que somos capazes das piores atitudes, assim como das mais santas. Por que seria diferente com os outros? E, ao aprender a acreditar menos na linearidade alheia, nos treinamos também a acreditar em nós, na nossa capacidade de filtrar e equilibrar vícios e virtudes próprias ou dos semelhantes. É aquela coisa: ao ver um velhinho de barba branca, roupa vermelha e pança, pense que ele pode ser o avô rubro-negro fofinho de alguém, e não Papai Noel logo de cara!

29 de agosto de 2008

Pobre Justine

A jovem casta perseguida pelos sentimentos
mais baixos que a criaturas humanas podem ter.
Pobre Justine!
Os poderes do sexo perverso,
com requintes de crueldade,
fazem Justine sofrer os mais diversos tipos de
desventuras animais.
Mesmo acreditando no Bem
e em algo que a possa livrar dos seus infortúnios,
a moça não se vê em paz,
dada a caçada incansável
de seus perseguidores.
Sua fuga do prazer,
sua luta quase inocente
só agravam a fúria dos homens
que a querem dominar pela satisfação sensorial
de que ela tanto se esconde.
Crepax, Sade, tenham dó.
Pobre Justine!


27 de agosto de 2008

Pinta de palhaço


Ela deixava a gente intrigada. Uns olhos negros, pequenos, bem lindos, mas refletores de uma solidão que incomodava. Colecionava insucessos amorosos, apesar de sua doçura e beleza. E ninguém botava fé quando dizia que iria embora. Mas se foi. E não é que bastaram poucos dias fora da terrinha para que a maldição de outrora desse sinais de finda? As notícias foram chegando: "estou saindo com alguém maravilhoso"; "conheci um cara demais, que está doido para me levar ao teatro"... sim, superara a fase vuduzada (e longa) do zero-a-zero. Foi quando, entre sorrisos e orgasmos, flores e gentilezas, ligações no dia seguinte e conversas bacanas, ela registrou uma coincidência importante. Os três principais rapazes que a divertiram tanto eram atores. E nada proposital. Estaria explicado o bem representado papel de homem que amadores não costumam incorporar? Talvez. E a novela foi se desenrolando numa trama exclusiva de mocinhos, sem vilões. Mas, como todo enredo bonzinho atrai o baixo Ibope, começaram os capítulos de aventura. Quase se apaixona por um integrante de companhia de teatro que a prometeu o céu - mas a cena de nudez no palco a faziam ter que compartilhar o rapaz com outras da platéia. Depois mergulhou fundo no perigo ao sujeitar seu pescoço a um galã de olhos azuis...sem saber que ele era mesmo galã: um vampiro famosinho da novela Mutantes, da Record. "Meda!", pensou. Não imaginava o que viria pela frente. Saiu, em seguida, com um homem interessante, misterioso e divertido. "Ator você também? Que sina!". "Mas eu atuo de outra forma. Sou palhaço e mágico". Depois da gargalhada, ela ponderou sobre o que poderia ser uma noite encantada. Certa. Ao dar o primeiro passo no apartamento do rapaz, o primeiro susto: brinquedos, lenços e outros balangandãs decoravam todo o recinto. "São meus objetos de trabalho". "Ah...". O segundo momento de tensão a fez refletir se estaria bêbada demais. Um coelho branco pulou nos seus pés. "Aiiiiii!". "Calma, é Matilde, minha parceira de cartola". A terceira surpresa é impublicável. Mas a última foi o comportamento do palhacinho mágico no day after. O rapaz não fez o número do desaparecimento. Ligou, foi carinhoso e quis vê-la novamente para um "a seguir, cenas do próximo capítulo"...Soubesse ela antes que, se queria graça, bom humor, mistério e fantasia num só homem era só procurar um mágico-palhaço, teria fugido com o circo na adolescência! Agora queria mesmo explorar o picadeiro, a varinha mágica e os outros segredos do rapaz.

26 de agosto de 2008

A faca e o hímen na mão

Gravura de Pablo Picasso


Quando se vai chegando aos 30, certos assuntos/tabus/paradigmas/verdades distanciam-se da memória por falta de uso. O ainda não-uso do corpo para fins sexuais - ou seja, a virgindade - é uma dessas teclas atrofiadas pela intocabilidade. Isso quando não resolvem vir à tona casos considerados tão raros à essa memória pessoal quanto à sociedade indignamente dona dos postulados que devem reger a nossa vida. Mulheres e homens com mais de 25 anos podem nunca ter chegado às vias de fato? Mesmo com toda a facilidade nos assuntos putariais do mundo pornoglobalizado? Essas pessoas, se não estiverem mentindo sobre sua condição de não-iniciados, seriam ETs? Se a nós, ligeiramente safadinhos, soa estranho, imagine o que passa pelo íntimo da criatura que se encontra no estado de "pureza"?

Pelo menos 3 situações do tipo me foram confessadas nos últimos tempos. E, em todos os casos, o drama é grave. Bem longe de ser charminho, frescura ou frigidez, os tais virgens são vítimas das circunstâncias: "Nunca apareceu ninguém com quem eu pudesse ter alguma relação mais íntima", dizem, unânimes. Ok. Mas, para algumas criaturas, o problema está no que a transa representa: pecado, orgia, crime, perversão. Seja pela educação repressora ou por azar mesmo, o virgem de quase 30 anos entra num estado de desespero não pela ebulição nas entranhas, mas principalmente pelo rótulo inaceitável de membro (ops, desculpem a palavra) do Movimento dos Sem Sexo (MSS). Como participar de conversas sobre sexo sem parecer ingênuo? O que as pessoas vão pensar? E, nas oportunidades, vem também o medo de pagar mico com o parceiro. Aí fud...aí lascou tudo! O problema vai rolando na neve até virar uma bola desse tamanho...e não sobra espaço, no mundo, para os SS. Matar-se? Alguns apelam para prostíbulo ou, no caso das meninas, experiências até mais íntimas do que o coito comum: anal, oral, au-au, sei lá. Algumas fazem de tudo, mas na frente é proibido. Tudo por causa de uma pelezinha de nada...

Sinceramente, eu me comovo com o drama dos meus confidentes. Por isso, meu último conselho a uma integrante do MSS - apaixonada por um loiro e inacessível gigante (ai, pobrezinha...) foi: aproveita que és artigo exótico no mercado e confessa pra ele que és virgem. Toma uma anestesia alcoólica (via oral, claro. eu quis dizer, pela boca. Porra! ai...Você entendeu!) , abre as pernas e acaba logo com isso. Você tem a faca e o hímen na mão.

23 de agosto de 2008

Na feira de artesanato


Senhora A - Leve esse vestido, minha filha! Vai ficar lindo!

Mocinha A - É...tenho que ficar linda pra agradar meu namorado. Afinal, quero casar!

Senhora A - Se casamento fosse bom, não precisava de testemunha, filha...

Mocinha B - Concordo, senhora! Por isso que eu corro!

Mocinha A - Ah, mas é tão bom ter um ombro toda noite!

Mocinha B - E um par de chifres toda semana!

Senhora A - Hahahaha. Que cabecinha boa! Chifre é com ela ali...

Senhora B - Nem me fale. Levei tanto que estou tronxa. (banca vizinha).

Mocinha A - Mas nem todo homem trai...Né, Mocinha B? O que achas do meu?

Mocinha B - De homem se espera tudo...melhor a gente ir, né?

Mocinha A - Pois não vou levar o vestido!

15 de agosto de 2008

Parla!


Preciso criar um personagem. Alguém melhor do que eu...ao menos, mais atraente. Mais bonito, mais rico, bem-sucedido, intelectual, requintado e bem-humorado. Não...assim feliz e perfeito demais não vai convencer ninguém. Mal-humorado então, mas só de vez em quando, nos intervalos do sarcasmo. Isso! Nada mais interessante do que um homem belo, possante e sarcástico. Huuum...talvez devesse lançar mão de alguns desses clichês. Mas, sem lugar-comum, não teria graça. É, preciso de graça na minha vida. Quem sabe rir um pouco nem que seja da ingenuidade alheia? Alguém me aceitaria travestido do personagem? Seria eu capaz de seduzir, de longe, intrigar, atrair? Ah! Vou testar minha habilidade de persuasão. Sempre fui o melhor em manipular intelectos frágeis. Ou corações. Vou me ocupar, talvez me me divertir. Meu personagem será minha vida paralela. Ao menos agora terei vida. Fotografias de velhos amigos, bom gosto musical e literário, sensibilidade, charme e poder. E eu posso. Já pude! Criei. Sou eu, e estou aqui. Você acredita? Faça-me real, pois! Pode ser que o autor dessa façanha não esteja mais lá ou aqui quando meu sorriso, hipócrita, sair da tela.

10 de agosto de 2008

Sem sombra

(Tela Vampiro - E. Munch)

É hora, tira a máscara
Quero ver o que a alma esconde
O porquê de não ter sido nada
O para quê e o por onde

O sem nome
O sem mais
Encara sem perigo

Mostra agora a que te destinas
Qual o intuito do teu mistério
Observa meu pescoço exposto
Crava-lhe os dentes se te agrada
Mas a noite vai se acabando
E terás de comprar cigarros à luz do dia

Quem serás ao sol fervente?
Por que vens, se não te chamo?
Não nega, pois, esse confronto
Do intangível com nosso respirar

Se não és o que me pregaste
Temas não meu indicador, perdido em tua capa
Que sejas de outro nome e outro rosto
Um jardineiro, uma senhorinha

Já floriu, não tenhas medo, toda a essência que me faz súdita
És certeza, embora não existas

Mostra as mãos, mesmo calejadas
Toca, ainda que geladas
Pois conquistaste a paz dos meus dedos quentes
E te ofertarei um lenço ou uma bengala
Um café ou conversa fiada
Se fores só tu, sem sombra e de alma.


7 de agosto de 2008

Autodoação


Para os amiguinhos que riram da minha mudança de auto-suficiente para apreciadora da ajuda alheia (supostamente assumida no post anterior), a prometida letra da musiquinha que fiz aos 15 aninhos, na sala de aula, achando a coisa mais séria do mundo. Até os 18, alguns dos amiguinhos que já me conheciam cantavam e também achavam a coisa mais séria do mundo. Dois fizeram as melodias mais sérias do mundo para adaptar. Ah, como era bom ser a maior ridícula do mundo! Ao menos, ainda levo o rock'n'roll a sério...mas não preciso ser uma camisa-preta baixo-astral, né?
***
Autodoação
Nuvens frias pela praia
Peixes mortos no porão
Cortina de seda nos rochedos
Violetas pelo chão

Sintos as veias inflamarem
Com teus olhos torturantes
Pétalas e mantos negros
No marasmo de um instante
(Refrão)
Eu queria ser meu próprio caminho
Mas meu peito não sabe pulsar sozinho
Eu queria ser meu próprio caminho
Implorar sob os meus pés.
(2 x)

Preciso me dar uma chance
De lutar contra o inconstante
Digerir minha consciência
Pedir-meu um pouco de paciência

Enquanto meu barco não naufraga
Meu espírito não se afoga
Quero ouvir os meus próprios gritos
E morrer sobre a minha cova.

(Refrão)

5 de agosto de 2008

Primeira pessoa do plural

"Felicidade só é real quando compartilhada". A frase X do filme despretencioso ao qual assisti numa noite de domingo, a última de férias, ficou martelando no meu sono iminente (o último das férias?). Passamos tanto tempo da vida buscando a independência, a individualidade, o umbigo...até descobrir que contar o filme depois tem menos graça do que comentar com quem está segurando o saco de pipocas ao lado. Mostrar as fotos da paisagem apreciada nem se compara ao prazer de olhar e dizer nada a dois ou mais. E o compartilhar não significa enlace, companhia do sexo oposto. Simplório limitar de tal forma as relações. Dividir impressões, trocar confidências, falar sobre o óbvio, rir do mundo. Eis o não ser sozinho. Eis os pares e ímpares. O porquê de os álbuns de fotografia não expressarem mais do que as conversas nostálgicas sobre momentos vivenciados aos muitos. Os individualistas que me perdoem, mas companhia é fundamental. Passada a adolescência e os divisores de águas, fica mais gostoso experimentar o "nós", pois, além de se reconhecer a pobreza do "eu", elege-se com precisão os verdadeiros merecedores de um café, de um abraço, de uma confissão, de uma aliança. Apoiar-se nas próprias pernas e respeitar a identidade é sabedoria. Isolar-se no alto do ego, no entanto, é coisa de rebelde sem causa, charminho infantil, necessidade de provar uma auto-suficiência que não existe. Dessa perspectiva pequenina, a escolha do ser humano parece simples: expor-se à bagunça e ao barulho dos divinos/mundanos humanos ou (tentar) fugir do fantasma da solidão mantendo ligados a TV e o rádio.

31 de julho de 2008

Jargão do coração


Dizem que ter um filho é ver seu coração bater fora do corpo. E que, em coração de mãe, sempre cabe mais um. Que, às vezes, ele ameaça sair pela boca. Que amor com amor se paga. Que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito.
E tantos jargões, ditos e verdades, ainda assim, não são capazes de mensurar todas as habilidades e superpoderes desse romântico órgão. Coração também é elástico, inflável, invisível, divisível, multiplicável, camuflável, desdobrável. Sim, desdobra-se fácil, não? Ao menos o meu tá aqui, tá no Rio, em Petrolina, em Brasília, em Porto Alegre, em São Paulo...aliás, soube que ele está até procurando apartamento em Sampa, ó. É que nobres e invulgares habitantes deste posto cardíaco estão indo aos montes para lá. De avião e saia. De cabelos modernos. Com e sem acompanhante. Com e sem aliança. Sem passagem de volta. Com sorriso no rosto, brilho nos olhos... Impossível estar triste. E os meus olhos apenas umedecem. Não iria inundar meu super-herói pulsante. Até porque ele atravessa limites geográficos em segundos e até ensaia alguma telepatia. Não, coração, vou te deixar livre mais uma vez. Vá e volte, dance e pule, transcenda. Sim, coração, qualquer dia, eu volto a te encontrar.

25 de julho de 2008

A gorda e o Vale A


- Boa tarde. Deixa eu passar pela catraca que te dou a passagem. Pro sorvete não cair (risinho simpático).

- ...

Cinco minutos depois, cobradora de olho no sorvete:

- Vai ficar ainda mais gorda!

- ¬¬

21 de julho de 2008

Nada


Como procurar pela alma
Se faltam ainda as cores? Onde?
Tento, em vão, distinguir o sal
Mas é só água do mar...
Antes fossem lágrimas.

A chama morna não trepida, fumaça.
Fumaça? Também ela é inodora.
Antes exalasse terrível odor sufocante.

Só incomodam (ainda) os cigarros
E os 'despertares' de madrugada.
Só me comove a infância...
Todo o resto é nada.

17 de julho de 2008

De volta à janela

A internet escraviza. Ficar sem ela liberta, certo? Ao contrário: senti-me presa a um mundo pequeno, o meu. Meu mundo é bom, mas prefiro portas e janelas abertas. Janelas, janelas piscando, isso sim. E sucumbir ao internético não é optar pelo virtual em detrimento da realidade. Acho que é o mesmo que querer vencer minha miopia, na tentativa de enxergar mais longe e melhor. Bingo! Estar conectado é como usar óculos: você não precisa dormir com eles, mas depende dos danados pra ver além dos limites míopes. Enfim, estou de volta, queridos. Té daqui a pouco.

11 de julho de 2008

Férias dão trabalho

É, de férias. Teoricamente mais tempo pra fazer coisas legais, como escrever no bloguinho. Rá. Trabalhos por fora, filhotes enlouquecidos queredo passeio e sem net na casa nova ainda. Mas isso passa. Afinal, eu mereço sombra e internet fresca, não? Volto já.

25 de junho de 2008

Casa Amarela

The Yellow House - Van Gogh
De volta à casinha amarela, de onde parti tão cedo. Agora as casas são muitas. E de todas as cores. As pessoas, contudo, são as mesmas. O rapaz que conserta sapato do mercado, a manicure, o senhor da venda...Os meus cabelos também já mudam de cor. Minha casa não é mais dourada. Amarelo o meu sorriso, por vezes...mas sempre presente. Como as casinhas e os becos, os morros e as vielas. As crianças de hoje se encantam com o cenário onde já joguei bola e brinquei de esconde-esconde. Mas eu também podia de noite. As crianças de ontem inda batem na minha porta. Não são mais meninos-amarelos. Nunca saíram das ruas velhas nem das memórias daquele sol a se pôr quase alaranjado...ou cor-de-rosa. Prédios cutucam o céu, mas os transeuntes parecem não se incomodar. Também eu não me importo. Da minha casa, tudo é alto. E olhar para cima permite vislumbrar arco-íris. Fecho os olhos e sinto o cheiro de chão molhado. Calçadas sendo lavadas pelas senhoras de lenço na cabeça. E elas sorriem, como outrora. Vejo meu avô chegando, e o cheiro agora é de pão quente. Pastel de nata na boca e - Depois eu como, vô. Vou pra rua! Ao abrir os olhos, vejo as crianças pulando, agoniadas. Elas balbuciam "pa rua". E vou com elas, saltitante. Pras ruas de Casa Amarela.

18 de junho de 2008

Escolher o bege


- Não podemos ficar com o móvel...ela disse que não é o "nosso tipo". O nosso tipo é bege! Lá em casa agora tudo é bege. Parede, móveis...até a cama bege!

- Hunrum...

- Sabe, estou pensando em pintar a parede do quarto de vermelho. Vermelho me recorda você, de alguma forma. Lembra de quando estávamos juntos e você me deu aquela camisa vermelha? Acho que é isso. (...) Poderia ir me visitar um dia e ver o resultado da parede...

- Pensei que você preferisse bege...


***
Há quem opte pela salada quando prefere a massa. Há os que usam calça de pregas quando queriam estar de bermuda. Há aqueles que preferem preto a branco, mas não querem chocar com o tom escuro. Há homens que se apaixonam pelas mulheres inteligentes fascinantes, mas casam com as burras inofensivas. E há quem prefira bege.

15 de junho de 2008

Tudo novo de novo


Mudar, trocar, transformar, descobrir, desprender-se, desamarrar, experimentar, enfrentar, surpreender-se, esperar, ansiar. Verbos com ou sem seus complementos que sagitarianos conjugam com prazer. Novos ares, novo lar, nova rotina. Eu disse "rotina"? Não, não. Eu disse "nova". Ambiente diferente para outras situações que, espera-se, sejam inesquecíveis. Tanto quanto as que foram vividas no velho abrigo. Do jeito que se gosta: em pouco tempo, cirscunstâncias drasticamente diversas, quase opostas. Revoluções do ontem-e-lá. Expectativas no aqui-e-agora. Sacos de lixo cheios, doações, desapego... Cheiro bom de tinta e papelão...que venha o desconhecido e, pela própria natureza, fascinante e admirável mundo novo!

12 de junho de 2008

Feliz Dia dos Nãomorados!


Estranhamente gostosa a sensação de estar solteira pela segunda vez em 14 Dias dos Namorados. Principalmente porque, diferente daqueles períodos de solidão e ansiedade por que todos passamos entre relacionamentos - romances ou tragédias -, considero-me uma desnamorada enamorada. Sem namorado, mas por opção; sem paixão, mas sem dor; sem aconchego permanente, mas também sem nóias. Bom demais se enamorar da vida, dos filhotes maravilhosos, dos amigos de ontem e de hoje, do mundo e suas cretinices, risíveis ou não. E o "estar solteira", depois dos vinte e poucos e algumas lapadas (na cabeça e na rachada, claro), ganha outra atmosfera. Não aquele desespero para aproveitar cada instante em farras, paqueras e escrotices. E sim a sensação orgásmica de não ter compromissos, preocupações ou planos com alguém no Dia dos Namorados, por exemplo. De passar sexta e sábado à noite em casa, e daí? De o coração não sair pela boca quando toca o celular - seja quem for, espera ou liga de novo. De sentar numa mesa de bar com número considerável de homens (bonitos), sair sozinha com um amigo ou rir das cantadas masculinas, sem ter que justificar que nada disso obriga você a dar bola. Ficar sozinha, mas com o coração livre, sem a prisão da mágoa, do arrependimento, do trauma ou da saudade. Ficar sozinha e assim querer permanecer, mas sem se fechar às possibilidades. Não ter desespero de ligar para o gato absurdamente delicioso que te convida insistentemente para sair por preferir alguns momentos com aquele menos beldade que nem suspeita encantar. Poder decidir entre A e B pra programas X ou Y. Poder preferir tomar vinho sozinha ou sorvete Luluzinha. Hoje...Dias dos Namorados feliz pros casais felizes que amam, sem amarras, obrigações e encrencas! Triste Dia dos Desmoronados pros que vivem de aparência e enganações consigo e com o outro! E para nós: feliz Dia dos Nãomorados!

10 de junho de 2008

O sexo e a cidade


A cidade urge. As luzes são leves...e mornas. Bom. As cores da aquarela perdem o sal frente às nuances metropolitanas. Os prédios arranham a boca. O sexo cheira a rosas vermelhas. Batom carmim. Pescoço...lenços e plumas deixam levitar o coração. Quatro partes...quatro pontes. Cabelos textura de céu. Na tarde cinza da ilha de pedra. Nos peitos rubros de mulheres de aço.

8 de junho de 2008

Confissão

Odile Redon, Les yeux clos

Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.

Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!

Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
……………………………………………………..
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!…

(Florbela Espanca)

5 de junho de 2008

Mudou de signo aos 28


Tudo bem que, entre 28 e 30 anos de idade, ocorre o primeiro retorno de Saturno, ou seja, o planeta em trânsito se posicionará no mesmo local em que ele estava no momento de nascimento do indivíduo e iniciará nova volta em torno do zodíaco. E que, a partir de então, "não há mais tempo para ilusões e sim para definições e responsabilidades". Todavia, uma moça, em especial, resolveu dar a prova de que o zodíaco é o dono da verdade. Literalmente. Completos os 28 anos, a criatura não só mudou de trânsito saturnino, como mudou de signo! Nem faz o perfil distraída ou desinteressada das coisas astrais, coitada. Mas, pouco depois do 28º aniversário - 20 de março -, olhava, sem querer, um site de astrologia. Ao chegar aos escritos sobre seu então signo querido de coração e nascimento, Peixes, deparou-se com a pergunta: "de que horas você nasceu?".

- Rá! 22h10, oras...sei nem por que essa pergunta, resmungou.

Tamanha surpresa não tivera nem ao ser bulinada pela Monga - a mulher gorila, no parque de diversões do Interior, quando criança: seu signo não era Peixes, mas Áries. Depois de quase desmaiar e ligar para pessoas zodiacalmente informadas, elaboradores de mapa astral, etecétera, a moça entrou em depressão. E todo o romantismo, os sonhos, as emoções piscianas de cada dia? Seria agora uma ariana torta, viveria de amor profundo? É, seu gênio era muito Áries mesmo...cada marrada era um flash! Mas gostava da figura dos peixinhos singelos e sonhadores na seção horóscopo das revistas! Poxa!!!

Como não havia mais dúvida mesmo, resolveu ir em frente. Qual seria o ascendente? Na bucha: Sagitário. Da depressão profunda, partiu para a euforia absoluta. Claro que tinha que ter sangue sagitariano: dali viriam seu espírito livre, a comunicabilidade, o quê sensual e o bom-humor. Uau! No fim das contas, foi bom. Não era como os simples mortais: tinha três signos em sua aura. Peixes, Áries e Sagitário.

- Quando convier ser de Áries serei. E, quando for melhor ser de Peixes, para agradar uns e outros, não hesitarei em ser o signo antigo, concluiu, esperta (e um pouco bipolar!).
E assim foi viajando com Saturno em suas voltas...até os próximos 28 anos, quando a moça (ou melhor, a coroa) pode ganhar mais um ícone animal do horóscopo e uns traços de personalidade diferentes na caixola.

2 de junho de 2008

Do homem e do jogo

O Jogo de Cartas - Balthus
Jogo é jogo, e ganha quem pontuar mais. Afinal, para boa parte dos homens, o lance é vencer nem que seja nos acréscimos do segundo tempo. Se eles já acreditavam estar com a bola toda, agora ninguém segura o placar, já que os boys (acham que) descobriram o segredo da conquista: o desprezo. Se o velho termo "cu doce" era sinônimo de frescura feminina ao esnobar os rapazes num charminho clássico, eles passaram a vestir o padrão "nem te ligo" para atacar o adversário pelo ego. O livro O jogo — a bíblia da sedução (Editora BestSeller) é o manual elaborado pelo treinador dos machos esnobantes Neil Strauss para formar um time vencedor de conquistadores. A obra ensina a ganhar as gatas na balada por meio da manipulação da auto-estima feminina. Conversar com todas do grupo, menos com "o alvo", fazer críticas e piadinhas irônicas com a dita cuja e deixar as coisas para um segundo encontro são algumas das dicas. A triste constatação, no entanto, é que eles acreditaram. Tsc tsc. Sim, depois da publicação da matéria a respeito do livro num jornal local, algumas histórias engraçadas ocorreram por aí. Amiga X que o diga. Havia uns dois meses, ela protagonizara o que chamou de "a noite mais erótica"que tivera: os três homens da mesa não só a disputaram como brigaram entre si, ressaltando suas vantagens em detrimento dos defeitos dos concorrentes...apesar da disputa para ver quem a levaria, ela foi pra casa sem nenhum. Estaria tudo normal não tivesse um deles lido O jogo. Sim, como não? Pois que o rapaz - o mais velho e mais interessante dos três -, com quem já havia saído uma vez, resolveu ligar, numa sexta-feira, antes das 9h, pra falar do tempo e de "como vão as coisas no trabalho?". "Certo, estaremos todos no bar de sempre mais tarde", combinaram. Como não fazia o tipo sociável e ligador e ele só havia ligado mesmo no day after - havia quase um ano -, X estava certa de que a mensagem era: "vamos amar!". Ahá! Não contava com a astúcia do jogador. Quando ela chegou no bar, acompanhada de uma amiga em comum, o boy estava lá (costumava chegar sempre bem tarde), de banho tomado e cheirosinho (era hábito ir direto do trabalho, todo sebentinho) . Eram quatro, e dois deles iriam embora cedo. Mas o rapaz preferiu esnobar, se vingar da noite erótica, provar que era melhor ou coisa do tipo. Pérolas do zagueiro: "Não dá pra te deixar em casa". "Por que você não pede logo o táxi?". "Suas mãos são lindas, só estão maltratadas". Sim, e ela chegou em casa 23h, passada com o ressentimento ridiculamente exposto do rapaz. Ele deve ter chegado em casa gargalhando...e visto um pouco de TV, coçado e ido dormir chupando o dedo. Que divertido! Talvez outro jogador tenha se divertido em iguais proporções, ao contar vantagens e calcinhas que estava rasgando para a menina, no mínimo, bem intencionada que o deixaria na posição do melhor arremesso de três. Mas ele preferiu esnobar um bocadinho, ou melhor, falar daquela do passado e esperar pela outra do futuro, que, com certeza, eram mulheres dignas dele...mais TV. Mais gols. Menos pipoca e diversão. Que os jogadores saibam: deprezo é coisa pra quem tem auto-estima baixa ao ponto de precisar de jogadas ensaiadas para marcar. E os pontos ganhos são mulheres superficiais, que, quando sentem insultada sua beleza, têm que provar que são mais que as outras. Psiu!! Senta, que começou o segundo tempo! O jogo deve virar...

28 de maio de 2008

Charlotte (para Olivete)

Linda, pequena,
Passarinho de mil asas
Olhos de espelhos e pratas
Tão brava que serena

Navega, adiante, Helena
Constrói muros e casas
Tuas Grécias desenhadas
São teu palco, entra em cena

Menina de alma grande
Aparece, aos céus te lança
E faz o ontem ficar distante

Mostra a todos o teu dote
Transcende, avança
Que teu nome é Charlotte

26 de maio de 2008

Mais louco é quem me diz que não é feliz

(Loucura-Vincent Van Gogh)

Louco é até bonitinho de falar. Tornou-se adjetivo dotado de charme e utilizado também para caracterizar pessoas legais que se aventuram em uma ou outra situação. O conceito primário do termo, no entanto, passa a idéia de pessoas, no mínimo, temíveis pela própria natureza. Talvez pelo fim dos sanatórios ou pelo aumento da população terráquea, tais figuras desajuizadas saíram das novelas e estão, cada vez mais, presentes no convívio dos aparentes mente-sana. Embora loucura seja termo altamente questionável, paupérrimo e feio para definir os seres perturbados por esse ou aquele motivo/doença/trauma/confusão momentânea, é infelizmente boa alternativa para se falar das paranóias humanas de maneira popular.

Comunidades no orkut intituladas "Sou pára-raio de loucos" são apenas um dos sinais da invasão insanidade que paira. Um querido está prestes a usar camisa-de-força ele mesmo depois de experiências seguidas com "loucas". Convencido de que se trata de carma, ele teme se aproximar mais profundamente de qualquer criatura de saia, a fim de evitar ataques de ciúmes, mudanças repentinas de humor ou até faca no pescoço. E como convencê-lo de que o mundo não é tão dodói assim se "de perto ninguém é normal"? Numa olhada superficial, paletós, saltos e óculos decentes demonstram charme e distinção; aproxime-se, conheça, e dificilmente escapará de escandalizar-se com algum comportamento estranho/bizarro em relação à opinião comum.

Quando se trata de relacionamentos, o bicho pega (e, se ficar, ele come. Corra, Lola, corra!), uma vez que se passa a conviver mais intimamente com a criatura. Classificar de loucos tão somente seria simples não parecessem normais ao olho geral. "Vai comer um quilo de sal com ele", diriam os matutos. Sábios. Amigos, amantes, colegas de trabalho, parentes...Lindos, loiros e loucos, basta surgir uma situação crítica com a qual não saibam lidar. Meda! Não vale julgar alguém por única atitude - alguns fatores facilitam o aspecto lelé-da-cuca de alguém, a exemplo de bebida, remédio, TPM, trauma recente...Todavia, se o outro é fichado no hospício, apresenta traços de desequilíbrio e, principalmente, faz sofrer alguém, a solução é cair fora. Por que pagar pra ver? Não há exemplos suficientes do que pode causar a alimentação da loucura alheia? E se somos nós os insanos, não devemos nos tratar de alguma forma para descobrir e quiçá curar nossos fantasmas grotescos, nossos monstros e bruxas de olhos arregalados e risadas macabras?


Uma Amiga X estava encantada com um homem que conhecera e com quem estava saindo havia quase um mês. Ao apresentá-lo às amigas, casualmente, uma delas a chamou em particular e disse que o infame era louco e que ela corria risco de vida. Não, ela não achou que, com ela, ele fosse se jogar novamente do apartamento ou tentar invandir sua casa. Confessou estar intrigada o suficiente para continuar.

Outra ignorou o passado de confusões narrado por ex-namoradas, ex-colegas de trabalho e até pela família do cabra da peste e passou pelas mesmas coisas sobre as quais foi avisada. Amigos psicólogos corrijam, mas muitos psicopatas com diferentes problemas são altamente sedutores. Quando a criatura já está envolvida, é difícil sair incólume. Sinais, luzes de alerta vermelhas piscando no subconsciente, conselhos de entes queridos e desconfiômetro. Melhor acreditar mais nos avisos antes de embarcar na doença do outro e se perder nos caminhos medonhos da mente.

15 de maio de 2008

O último café


- Não acho que seja uma boa idéia. - Retrucou, como de costume, do alto de seus metro e oitenta e nariz imponente. Seria ridículo aceitar aquela idéia louca em plena segunda-feira. Ele deixara a adolescência havia muito para se aventurar tanto. O tempo era de outras coisas e os compromissos gritavam. Não! A resposta era "não"!

Como ignorasse a rejeição dele, e num sorriso lateral monalísico - quase um não-sorriso - ela discou no telefone e confirmou, baixinho, a reserva com a moça da agência.
- Sim, são duas para Praga. Isso, daqui a dois dias! Tem??? Ah, eu sabia que o Universo conspiraria a favor! Obrigada! - Feito o servicinho, os olhos brilhavam, eufóricos, como da primeira vez em que o vira, ou melhor, o pescoço dele. Era tudo o que tinha a princípio: a imagem de um pequeno trecho do seu corpo que a fizera tremer visceralmente, tamanha a premonição de virilidade, a visão em flashes frenéticos que a certificaram de que aquele homem era alguém mais do que seus amores frustrados.

Aeroporto. Relógio. Estômago embrulhado. Ele estava atrasado. Não iria? Nem o seu ato ousado e o cafuné pós-discussão o teriam inclinado a ceder à promessa de verem juntos àquela maravilha de cidade onde projetavam seu ideal compartilhado de felicidade? Lá, onde eles poderiam finalmente se esquecer do mundo aquém-paz, onde calendários, ampulhetas, velocímetros e contadores de quilômetros não tinham valia.
Ah, Praga na primavera...Karluv Most, Mala Strana, U Tri Pstrosu, canto de rio com mesas no jardim, moinho no braço de rio que invade a cidade e que era habitado por uma bruxa, as casinhas dos ourives Castelo de Praga, numa das quais teria vivido Kafka. Os sons guturais da língua Tcheca a sugerir segredos inefáveis mesmo no mais banal "bom dia". Praga do Hradcany, em que as crianças param às portas da lojinha de CDs ao fim da aula. Em silêncio. Ouvindo Bach. De sabores...mentolado, meio-amargo, doce-e-salgado, umami...dissabores...ele não viria.

Suor e café, extraforte. E sem açúcar, por favor. Ela preferiria bem doce, ao lado do chocolate de menta. Mas não importava. O paladar da alma dele provaria o amargor da ausência. Já não o teria degustado outras vezes? A momentânea insanidade daquela mulher infantil passaria, e talvez voltassem à rotina, ao trabalho e à velha relação...Praga. Não sabia se o tremor nas mãos que o fizera deixar cair dois cigarros era por causa da cidade dos sonhos projetados sozinho e com ela. Estaria novamente com ela. Longe dela. Por que essa pressa de viver tudo? Não largaria seus alfazeres por um capricho feminino...Ela o entenderia mais uma vez.

- Senhora?
- Sim?
- Mesa para quantos? É a primeira vez que vem a Praga?
- Somente eu. Aham, e convenhamos que, na minha idade, deva ser a última também, não? - Brincou, causando boa impressão ao garçom franzino. Uma senhora de espírito jovem!, pensou. A frustração não a fizera abandonar o bom humor. Se, em 64 anos, estava de pé, não seria agora o fim do mundo. Mas o mundo, tão belo e pulsante naquela cidade misteriosa, era todo preto e branco. E sem açúcar. - Não, pode levar o biscoito. Vou tomar puro hoje. - E sorveu, quente, num gole único, o líquido negro como sua amargura. Não podia crer que seria diferente daquela vez. Ele vacilara novamente. A ausência de cabelos e os 70 anos na foto charmosa da carteira de identidade não o fizeram abandonar o medo.
Levantou-se. Ia procurar as bruxas, o moinho, as casinhas, o doce ar a sacudir seus cabelos brancos. Pela primeira vez, compreendeu que sal e açúcar não funcionam juntos. E o salgado da lágrima a fez fechar os olhos: eram óleo e água, mas pertenciam um ao outro. Ele ar seco, ela coração úmido, mas juntos, dia de chuva na janela. Pois que seu coração rejuvenescia e o sorriso brotava inocente apenas com a lembrança da existência daquele que amou a distância e ainda assim a fizera feliz.


14 de maio de 2008

O conto (dele) do nada

Não era um dia para conversões, muito menos para morangos no jardim. Quando a chuva do pequi chega, o mais que se pode querer é sentir o olor do mato quente respingado. É uma chuva que se mede em pingos, não em milímetros. Adão contou trinta e sete sobre a calça khakis, as pernas esticadas e cruzadas no remoer da dor dos morangos que eram a ausência de Natine. As sombras se esticavam como suas pernas, puxadas pelos dedos amarelos que cegam nos fins de tarde do cerrado. Sombra de um tronco, sombra da caixa de morangos sobre a mesa de centro no centro de nada, na sem-temperatura de Brasília que, às cinco horas, dá lugar a outros calores, a outros frios, a saudades.
Esta é uma história sobre nada, sobre como nada aconteceu e sobre como o Nada pode pesar tanto sobre um homem.
O Rayuela merecia ter sido o palco dessa história não acontecida, ele que foi palco do que não deveria ter acontecido, palco do grande erro que foi errar com Natine.
................................................................
No Café, Adão teria pedido um porto para dois e ela retrucaria, talvez, que preferisse anis ou um chopp, o primeiro para demarcar seu gosto tão outro – Adão jamais pediria anis – o segundo para ir bem com o despojamento da legging de oncinha com camiseta preta, e o cair da tarde de domingo, inaugurando um ritual urbano com que se promete um beijo antes de chamar novamente o garçom. Isto, se seus olhos fizessem bem o seu papel de condutores dos gestos, enquanto boca e ouvidos seguem sua trilha sonora raramente relevante, praticamente incidental, porém talvez não com ela, para ela Adão quereria uma conversa intensa, de trocas rápidas de rumo, ritmada por observações sagazes sobre a viela, o jardim, a arte arremedada, as buzinas, coisas que aproximassem suas percepções do mundo em volta, que aproximassem seus copos, corpos e lá estaríam os dois do mesmo jeito, na iminência do beijo, se com arte também antes do segundo chopp.
O que fazia de Natine uma mulher incomum era a conjugação, nela só, de uma meia dúzia de lugares comuns de roda de homens, somados a dois ou três atributos que seria ridículo lembrar num ambiente desses. Os tais lugares comuns começavam pelo ser morena e ter olhos negros, passavam pelo seu metro e sessenta, e encerravam qualquer discussão ao chegar aos quadris, em movimento ou não. Que quadris!
Enquanto esperava Adão para sair do café, Natine folheava uma revista. Quanto charme no folhear de uma revista que era ou Nova ou Cosmopolitan, enfim, uma revista que ensina mulheres a dominar homens, e que, talvez, numa edição passada tenha ensinado aquela mulher a folhear tão perfeitamente aquela revista.
.........................................................

Recostados ao tronco de uma árvore imensa - nem Adão nem Natine sabiam nomes de árvores, e achavam que o sonho de um dia escreverem um romance estava fadado ao fracasso por esta falha imperdoável. - o vento perfeito para o fim da tarde soprava, o mais de chuva não viria, no carinho do vento um consolo: os prazeres da infância sobrevivem à crueldade inevitável dos conflitos de que é feita a vida. Ventava e isso era bom. Mas Natine o acorda, mesmo distante.
........................................................
Adão tinha o hábito de quebrar o clima tenso com algum non-sense ou alguma frase que só os dois entendessem:
- Ipês, Natine.
- Hã?
- A gente poderia morar num tronco de Ipê. Que tal o Ipê amarelo? Só dá em setembro, por isso é o símbolo do Brasil: setembro, verde e amarelo. Acho que deviam dizer que é símbolo do Brasil também porque floresce na seca mais brava. Aquela árvore que a gente ficou recostado na L2, imensa, uma explosão em roxo, é o Ipê roxo. Essa dá entre junho e julho, junto com o Ipê vermelho, acho - se é que tem Ipê vermelho, não lembro bem agora, ouvi na TV essa estória toda. Aí, em agosto e setembro, vem o amarelo. Depois, ainda antes da chuva, vem o Ipê branco. Tem Ipê branco, também, e esse dá duas floradas. Pronto: já podemos escrever um romance.
- ...
- Um conto?
- Eu preciso pensar, Adão. Disse sorrindo.
- Pense, meu amor. Depois me diga. Me diga antes da segunda florada do Ipê branco.
- Depois a gente fala sobre isso. Come os morangos.
............................................................
Tudo isto se ele tivesse dito alguma coisa, mas não disse nada, não ligou. Se retirou como quem se rende, e ele se rendeu. Adão não perseverava, não insistia. Ele era de uma beleza que prenunciava ruína, e assim foi. Seus desejos eram satisfeitos com uma facilidade que o levara a achar todo o resto muito trabalhoso. Vivia para seus desejos imediatos, que os sucessos a que podia aceder, por talento e esforço de juventude, agora pareciam dar muito trabalho em comparação ao essencial - o essencial se resumia a receber doses insultuosas para os demais mortais de carinho das beldades do lugar. E morangos.
Ele continuou lá com seus dentes, seu nariz, seguro e correto, intocado e inatacável, em resumo: miseravelmente sem ela e sem sequer uma história digna de menção para envolver aquela mulher tão digna de menção.
...........................................................
Da janela do seu quarto, Adão observa quase sempre, não hoje, o azul imaculado de nuvens que pinta a seca, no céu de meio-dia da Brasília de um dia como este. Mas não vê como deitar sobre ele os olhos daquela mulher que se perdeu num domingo, num Café, capuccino e pão de queijo, a vida inteira que poderia ter sido e que não foi. Que não foi adiante. Que não foi além... de não ter sido Natine.
***
Escrito por: Umami Brasilis

No entanto, entretanto e portanto...


Coração Noturno

(Raul Seixas)


Amanhece, amanhece, amanhece,

amanhece, amanhece o dia

Um leve toque de poesia

Com a certeza que a luz que se derramanos traga um pouco, um pouco, um pouco de alegria!

A frieza do relógio não compete com a quentura do meu coração

Coração que bate 4 por 4 sem lógica, sem lógica e sem nenhuma razão

Bom dia, sol!!!

Bom dia, dia!

Olha a fonte, olha os montes

Horizonte

Olha a luz que enxovalha e guia

A Lua se oferece ao dia

E eu guardo cada pedacinho de mim

pra mim mesmo

Rindo louco, louco, mais louco de euforia

Bom dia, sol!!!

Bom dia, dia!

Eu e o coração

Companheiros de absurdos no noturno

no soturno

No entanto, entretanto e portanto...

Bom dia, sol!!!

Bom dia, sol!

12 de maio de 2008

Camaleão


Ele: Experiência negativa ontem. Peguei uma aleatória que queria praticamente fazer parte da família em menos de uma hora.

Eu: Affff, "aleatória" chiclete ninguém merece realmente...

Ele: Pior, CHICLETEIRA!

Eu: Argggghhhh. Avulsa-chiclete-chicleteira...Brochante, no mínimo.

Ele: Sinceramente, fingi orgasmo!

Eu: MENTIRA! Passada!

Ele: Ela tinha uma tatuagem do camaleão símbolo da banda, po. Na nuca!

Eu: Realmente...E a otária não percebeu? Ela engoliu (o fingimento, claro)??

Ele: Ô! Eu tinha que acabar logo com aquilo. Aproveitei e saí escondido!

Eu: ...

***
Preconceitos musicais e brochadas justificáveis a parte, o fato é que eles vão mesmo dominar o mundo. Não bastasse fingirem sentimentos, fidelidade e boas intenções, eles fingem orgasmo. Pior: elas acreditam, assim como crêem nas boas inteções, nos sentimentos e no Saci Pererê.