13 de fevereiro de 2008

Um dia, um adeus


Tentara manter o mesmo semblante forçadamente sereno com que deu adeus ao fechar a porta do carro dele. Atravessados os muros de casa, no entanto, o derreter do coração sufocado durante aquela noite tensa se liquefez automaticamente, como houvesse uma cachoeira sob os olhos, a molhar a blusa e a esperança. Sabia que tinha feito certo em diagnosticar o fim, e grande alívio a confortava, de certa forma. No entanto, o silêncio concordante do outro ainda fazia sangrar a vontade dos ouvidos de receberem qualquer coisa que não fosse o desamor. Ela estava certa: não fora correspondida em seus anseios de comunhão com aquele que a despertara de novo o calor no coração gélido. Restava-lhe somente se contentar com a amizade; não podia perdê-lo de todo. E lembrou dos tantos momentos em que segurou as próprias mãos pra não afagar-lhe a face, mordeu a língua a fim de evitar confissões que o pudessem assustar e desviou o olhar que lhe denunciava sentimentos ímpares. Não queria estragar-lhe os planos tão bem traçados de ambição num futuro só dele; temia com certeza clara não ser aquela que se encaixasse no modelo construído de companheira. Afinal, três corações podem pesar em peitos destreinados para essa superpotência cardíaca. Tinha a certeza do fracasso, embora não desistisse. Mas aquele silêncio diante da realidade exposta doera mais do que ela esperara. Queria ter ouvido ao menos um "valeu a pena"; não, queria mais do que isso. Queria ouví-lo discordar, pedir que ficassem juntos, num presente isento de "se", "talvez" e "quiçá". Porque, na segurança dos seus braços e na certeza do seu amor, ela faria qualquer coisa para ficar ao seu lado. Nunca tivera medo de mergulhar em sonhos, arriscar mudanças e apostar nas peças pregadas pelo destino. Apegada sim às raízes, mas arraigada ainda mais à felicidade possível, à soma de mais corações. O morrer de véspera dele, a derrota adiantada do sonho e a falta de coragem ou vontade de enfrentar a inexatidão do futuro estavam estampados naquele silêncio. Um calar de quem prefere caminhos fria e calculadamente traçados, sem final feliz; de quem diz querer, mas renuncia. E, ao entrar em casa, ela sabia de que se o que batia tão forte dentro de si estivesse também dentro dele, não haveria adeus. Ela não se contentava com o pouco de querer, de vontade e de reciprocidade que ele lhe oferecera. Ficou então com a amizade. E se apropriou dos advérbios condicionais do amado. "Se ele quisesse e sentisse, eu iria até o fim do mundo ao seu lado". "Talvez tivesse dado certo; talvez nem precisasse de tantas mudanças". "Mas só se...se ele realmente quisesse". Ele bem que tentou, mas nem a coragem nem a fé do coração daquela mulher foram suficientes para abalar o coração petrificado do homem do adeus.

3 comentários:

coccinelle disse...

aaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh
como as pessoas têm tendência a complicar as coisas... mais do que elas já são!

digo um conselho: quando a gente vê, já passou! e o que não vivemos se transforma num grande vazio, maior do que se não tivesse dado certo.

vamos viveeeeeeeeeeeer e deixar a complicação para depois.
eu vi, eu presenciei, e é lindo! ei, ei! tou falando de vcs mesmo viu?
bjs
joana

Paranóia Ululante disse...

Rapaz, isso aqui ta super novela mexicana! Mas de qualidade!
Quer saber, adoro essas novelas.
E quero que o casal fique junto no final.

nobody disse...

amora, meus olhos brilharam diante de sentimentos e angústias tão genuínas e familiares... Me emocionei e acho mesmo q o mundo tá precisando de menos pudores e menos capas protetoras! foi lindo, duplamente lindo!

te amo mesmo!!!!