
What's the time? Além de Roxette, muitos já fizeram tal pergunta. Mas, afora o seu sentido literal, pode-se divagar sobre o tempo presente, aquele hoje sobre o qual dá até medo de falar por não termos segurança do que significa. Passamos boa parte da vida concentrados no futuro e obcecados pelo passado. Basta analisarmos o nosso dia. No desjejum da segunda-feira, já estamos neuróticos a planejar o almoço, os pagamentos e os compromissos da semana. O tempo não catatônico que sobra, geralmente nos minutos antes de adormecer, é dedicado às lembranças dos dias (ou meses, anos, encarnações!) anteriores e suas sequelas tatuadas na nossa mente subestimada. Durante reflexões existenciais, atemo-nos ao "de onde viemos?" e "para onde vamos?", uma vez que o "quem somos?" parece absurdamente desagradável de exercitar, não se sabe bem por quê. Se ensaiamos alguma coragem para fazê-lo, logo surge a grande idéia de assistir a um filme, voltar ao livro sem fim da cabeceira ou escrever um post inútil no blog. Como nos organizar para atingirmos aquela felicidade tão natural quanto picolé de tuti-fruti que nos apontam os best-sellers pós-modernos cifrônicos e alienantes (para reconhecê-los, observe se o título traz palavras como queijo, inteligência emocional, enriquecer, pro-ativo...)? Fácil nos transpormos para o futuro ideal das miragens consumistas ou românticas...até lembrarmos o nosso passado, o que não fizemos e os feitos errados. O banzo do hoje chega de novo. O tédio de nos constatarmos automatizados por recordações lobotômicas que já nem sabemos se foram reais e também por vislumbres de um futuro nervoso, ansioso, quase esquizofrênico da satisfação plena dos nossos desejos de agora. E agora? O que fizemos dele? Dispendemos o mesmo esforço para vivermos bem nossos dias? Levantar mais cedo, preparar um café-da-manhã especial, depois de observar o céu azul-gritante do terraço, usar o sabonete importado no banho demorado, produzir-se com o melhor do guarda-roupa, ir de táxi, pôr em prática idéias outrora vagas no trabalho e pregar uma figura de Klimt na repartição. Completar as palavras cruzadas enquanto espera a vez no consultório médico, de onde se sai direto para fazer os exames solicitados, que, dessa vez, não vão perder a validade da requisição. Na volta para casa, jogar-se no chão com as crianças para uma sessão de arte na cozinha, onde farão biscoitos, com direito a sujar roupa e mesa. Antes do sono, escrever aquelas linhas pendentes, telefonar para os amigos esquecidos e esmagados pela nossa ânsia por amanhãs que nunca chegam. Outro banho perfumado, um filme intrigante, ler Neruda ou Espanca com taça de vinho e castanhas. E a única preocupação, ao dormir, será a de como os lençóis novos parecem confortáveis. Nesse exercício de aqui-agora, nosso tempo é hoje. E também a nossa perda contemporânea será a de cada dia. Agarrar já as oportunidades que poderiam ficar para o superlotado amanhã. Comer a cereja primeiro. Permitir-se o desfrute destinado a um tão longe e arriscadamente inexistente fim de semana. Desligar a tecla Remember. Sentir-se ato e não plano. Talvez aprendamos a conjugar o tempo presente por um método mais leve do que o do arrependimento futuro daquilo que não se fez no passado por atropelamento do hoje.