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15 de maio de 2008

O último café


- Não acho que seja uma boa idéia. - Retrucou, como de costume, do alto de seus metro e oitenta e nariz imponente. Seria ridículo aceitar aquela idéia louca em plena segunda-feira. Ele deixara a adolescência havia muito para se aventurar tanto. O tempo era de outras coisas e os compromissos gritavam. Não! A resposta era "não"!

Como ignorasse a rejeição dele, e num sorriso lateral monalísico - quase um não-sorriso - ela discou no telefone e confirmou, baixinho, a reserva com a moça da agência.
- Sim, são duas para Praga. Isso, daqui a dois dias! Tem??? Ah, eu sabia que o Universo conspiraria a favor! Obrigada! - Feito o servicinho, os olhos brilhavam, eufóricos, como da primeira vez em que o vira, ou melhor, o pescoço dele. Era tudo o que tinha a princípio: a imagem de um pequeno trecho do seu corpo que a fizera tremer visceralmente, tamanha a premonição de virilidade, a visão em flashes frenéticos que a certificaram de que aquele homem era alguém mais do que seus amores frustrados.

Aeroporto. Relógio. Estômago embrulhado. Ele estava atrasado. Não iria? Nem o seu ato ousado e o cafuné pós-discussão o teriam inclinado a ceder à promessa de verem juntos àquela maravilha de cidade onde projetavam seu ideal compartilhado de felicidade? Lá, onde eles poderiam finalmente se esquecer do mundo aquém-paz, onde calendários, ampulhetas, velocímetros e contadores de quilômetros não tinham valia.
Ah, Praga na primavera...Karluv Most, Mala Strana, U Tri Pstrosu, canto de rio com mesas no jardim, moinho no braço de rio que invade a cidade e que era habitado por uma bruxa, as casinhas dos ourives Castelo de Praga, numa das quais teria vivido Kafka. Os sons guturais da língua Tcheca a sugerir segredos inefáveis mesmo no mais banal "bom dia". Praga do Hradcany, em que as crianças param às portas da lojinha de CDs ao fim da aula. Em silêncio. Ouvindo Bach. De sabores...mentolado, meio-amargo, doce-e-salgado, umami...dissabores...ele não viria.

Suor e café, extraforte. E sem açúcar, por favor. Ela preferiria bem doce, ao lado do chocolate de menta. Mas não importava. O paladar da alma dele provaria o amargor da ausência. Já não o teria degustado outras vezes? A momentânea insanidade daquela mulher infantil passaria, e talvez voltassem à rotina, ao trabalho e à velha relação...Praga. Não sabia se o tremor nas mãos que o fizera deixar cair dois cigarros era por causa da cidade dos sonhos projetados sozinho e com ela. Estaria novamente com ela. Longe dela. Por que essa pressa de viver tudo? Não largaria seus alfazeres por um capricho feminino...Ela o entenderia mais uma vez.

- Senhora?
- Sim?
- Mesa para quantos? É a primeira vez que vem a Praga?
- Somente eu. Aham, e convenhamos que, na minha idade, deva ser a última também, não? - Brincou, causando boa impressão ao garçom franzino. Uma senhora de espírito jovem!, pensou. A frustração não a fizera abandonar o bom humor. Se, em 64 anos, estava de pé, não seria agora o fim do mundo. Mas o mundo, tão belo e pulsante naquela cidade misteriosa, era todo preto e branco. E sem açúcar. - Não, pode levar o biscoito. Vou tomar puro hoje. - E sorveu, quente, num gole único, o líquido negro como sua amargura. Não podia crer que seria diferente daquela vez. Ele vacilara novamente. A ausência de cabelos e os 70 anos na foto charmosa da carteira de identidade não o fizeram abandonar o medo.
Levantou-se. Ia procurar as bruxas, o moinho, as casinhas, o doce ar a sacudir seus cabelos brancos. Pela primeira vez, compreendeu que sal e açúcar não funcionam juntos. E o salgado da lágrima a fez fechar os olhos: eram óleo e água, mas pertenciam um ao outro. Ele ar seco, ela coração úmido, mas juntos, dia de chuva na janela. Pois que seu coração rejuvenescia e o sorriso brotava inocente apenas com a lembrança da existência daquele que amou a distância e ainda assim a fizera feliz.